Archive for February, 2008

Carmina Burana

posted by Marcio Rosa in Libretos

Carmina Burana é uma cantata cênica de poesias latinas medievais, pretendida para ser representada e dançada, posta sobre textos em baixo latim e baixo alemão, os quais foram extraídos de uma colocação de duzentas peças poéticas diversas compiladas pelo final do século XIII.

A palavra Carmina é o plural de Carmen (em português, Canção). O título inteiro significa literalmente: Canções dos Beurens; esta última palavra se refere ao fato de que os textos escolhidos para esta cantata secular foram descobertos em 1803 em um velho mosteiro beneditino da Baviera, em Benediktbeuren, no sudoeste da Alemanha.

Esta cantata é emoldurada por um símbolo da Antigüidade, o conceito da Roda da Fortuna, eternamente girando, trazendo alternadamente boa e má sorte. É uma parábola da vida humana exposta a constante mudança. E assim o apelo em coral à Deusa da Fortuna (O Fortuna, Velut Luna) tanto introduz quanto conclui a obra, que se divide em três seções: o encontro do Homem com a Natureza, particularmente com a Natureza despertando na primavera (Veris eta facies). Seu encontro com os dons da Natureza, culminando com o dom do vinho (In taberna); e seu encontro com o Amor (Amor volat undique).

A maioria dos mais de duzentos poemas sacros e seculares remonta ao século XIII e foi escrita por um grupo profano de errantes chamados Goliardos. Estes monges e menestréis desgarrados passavam o seu tempo deliciando-se com os prazeres da carne e os poemas que eles deixaram, faziam a crônica de suas obsessões por vezes ao ponto da obscenidade.

Este manuscrito abrange todos os gêneros, de versificação erudita à paródias de textos sacros, incluindo canções de amor e melodias irreverentes e até grosseiras. O fato de que o texto original destes Poemas de Benediktbeuren seja executada hoje em dia com tão extraordinário sucesso artístico, permite ao ouvinte discernir ainda melhor as intenções de Orff onde sua música não se expressa claramente.

Como uma antologia, Carmina Burana apresenta tudo o que o mundo cristão entre os séculos XI e XII fora capaz de exprimir. Aquela época não foi secionada como a nossa, nem inibida pelos nossos tabus. Assim, os autores anônimos dessas saturnálias escritas não temiam espalhar a chama incandescida pelo contato inesperado de uma melodia litúrgica e uma blasfêmia, mais precisamente um priapismo verbal, ou inversamente de uma nova melodia profana e uma profissão de fé.

Neste sentido, a coleção original restaura para nós, todo um cosmo onde o Bem não existe sem o Mal, o sacro sem o profano e a fé sem maldições e dúvidas: a oscilação onde se encontra a grandeza da Humanidade.

A dialética freudiana foi necessária para a redescoberta deste humanismo medieval até então considerada bárbara e cruel; uma vitalidade que permitiu ao homem sobreviver ao sofrimento da guerra, o mundo infestado pela praga em que ele era submetido à injustiça, à instabilidade, e mantido na ignorância de tudo que não fosse santificado pelo dogma. Sabemos que insultos dirigidos contra a autoridade, palavras ofensivas e blasfêmias que temperavam de maneira acre a expressão dessa energia vital eram herdadas do mundo antigo e chegaram ao começo do renascimento na tradição dos Carnavais e Triunfos que Lorenzo de Medicis e Rabelais ilustrariam, cada qual por sua vez.

Esta genealogia espiritual era tão familiar a Orff que ele concebeu Carmina Burana como apenas o primeiro elemento de uma trilogia intitulada Trionfi-Trittico Teatrale, que incluiria Catulli Carmina (1943) e Trionfi dell’Afrodite (1952), uma obra que revelou a significação do todo: só o Desejo e o Amor podem capacitar o Homem a viver, lutar e crer.

Oh, fortuna,
Variável
Como a lua,
Sempre cresces
Ou minguas;


Detestável
Ora frustra
Ora satisfaz
Com zombaria os desejos da mente,
À pobreza
E ao poder
Dissolve como se fossem gelo.

Sorte monstruosa
E vã,
Tu, roda a girar,
A aflição
E o vão bem-estar
Sempre se dissolvem
Tenebrosa
E velada
Atacas-me também;


Agora por teu capricho
Costas nuas
Trago sob teu ataque.
Senhora do bem-estar
E da virtude,
Estás agora contra mim;


Nesta hora
Sem demora
Tocai as cordas;
Pois que a sorte
Esmaga o forte
Chorai todos comigo.

Suma Teológica de S. Tomás de Aquino em português

posted by Marcio Rosa in Teologia

No atual movimento mundial de traduções da Suma Teológica de S. Tomás de Aquino, é a presente versão portuguesa a primeira publicada no continente americano. Inútil salientar-lhe a utilidade. A Suma do Aquinate não só é obra capital em teologia, como também constitui verdadeira mina de conhecimentos filosóficos. A presente versão é obra exclusivamente pessoa, honrando sobremaneira o espírito metódico e a extraordinária capacidade de trabalho do tradutor.

Segundo cálculo de Mons. A. Legendre, compreende a Suma 3113 artigos, cuja leitura completa, à razão de um por dia, ocuparia mais de oito anos. Ora, doze anos apenas levou a tradução! A versão da 1a. Pars ocupou quatro anos (1926-1929). A Prima Secundae foi vencida em três anos (1930-1932). A Secunda Secundae foi principiada em 1933 e continuada em 1934. A 3a. Pars e o Supplementum foram terminados em 1937.

A execução de obra tão alentada foi levada a efeito sem prejuízo da preparação em três concursos para provimento de cadeira, um de literatura, os outros, de filosofia do direito e de direito romano. Acresce uma vida de professor sobrecarregado de aulas, para ter um vislumbre da fidelidade inquebrantável à pequena tarefa diária, pela qual se constroem todas as grandes obras de espírito. ‘Leal e modesto, quis o tradutor que o original latino, tão raro hoje em dia, acompanhasse a versão, submetendo assim a própria obra à verificação e facilitando o acesso à preciosa fonte. Em suma, o dr. Alexandre Corrêa brindou as letras luso-brasileiras com um presente de inestimável valor, que os estudiosos nunca lhe poderão agradecer condignamente.
São Paulo, 10 de outubro de 1943,
Leonardo Van Acker

Uma tradução portuguesa da Suma Teológica de S. Tomás de Aquino é um verdadeiro acontecimento que deve marcar época na nossa literatura. A obra prima do grande gênio medieval não é destas que pertencem a um século ou a uma nacionalidade. Como todas as criações verdadeiramente geniais, alteia-se acima das particularidades de uma raça ou das contingências mutáveis de uma época, para atingir esta eminência humana que se impõe, na sua universalidade, a todos os lugares e a todos os tempos.
Na vida do Anjo das Escolas, ela representa a sua obra fundamental, a expressão mais completa do seu pensamento. Iniciada em 1266, quando o Santo se achava em plena maturidade intelectual, e só interrompida pela morte, encerra, salvo uma ou outra pequena exceção, a fórmula definitiva do pensamento e do ser, constitui a síntese mais robusta e mais ordenada de toda a sua filosofia e teologia.

Na evolução do pensamento medieval, a Suma assinala um apogeu. Os primeiros séculos da Idade Média foram de luta contra as devastações intelectuais acumuladas pelas invasões bárbaras. Os fins do século XII e a primeira metade do século XIII são caracterizados pelos contrastes penosos entre o augustinismo de inspiração predominantemente neoplatônica e o aristotelismo que pouco a pouco se ia revelando ao Ocidente em toda a harmonia de sua solidez. Foi Alberto Magno e principalmente Tomás de Aquino que levaram a termo a obra gigantesca de assimilação completa da síntese peripatética pela vitalidade intelectual do cristianismo. E a Suma Teológica é a expressão mais acabada desta harmonia profunda entre a razão e a fé, a filosofia e a teologia, em que vem culminar esplendidamente os melhores esforços de tantas gerações de pensadores cristãos.

Na catedral gótica com as suas ogivas e as suas cúspides, lançada toda para as alturas, como uma prece vasada na plasticidade da pedra, palpita toda a alma artística da Idade Média. Na Suma Teológica, com a amplitude de sua concepção, com a seriação ordenada de suas questões, com o rigor austero dos seus argumentos, espelha-se toda a serenidade e todo o vigor do seu pensamento.

Na história universal das idéias, a obra prima de S. Tomás ocupa um lugar privilegiado, quiça uma situação de incomparável singularidade. Sete séculos já volvidos não esgotaram a opulência de seus tesouros. A sua vitalidade está intacta. As universidade do século XX comentam-na com não menos admiração e utilidade, que a jovem Universidade de Paris do século XIII. Com exceção talvez as obras de Aristóteles, nenhuma outra foi tão lida e comentada, estudada e discutida. O seu pensamento palpita sempre vivo, com uma fecundidade inexaurível. Em toda a exatidão do termo, é uma obra-prima.
Eis o grande livro de que agora se nos oferece a versão portuguesa. Mas por que traduzi-lo?

Por que lhe não respeitar a língua original, este latim tão sóbrio e incisivo, tão denso e tão claro, trabalhado com tanta perfeição como instrumento de expressão técnica do pensamento escolástico? Sem dúvida, a quem for direta e facilmente acessível a língua imediata em que S. Tomás vasou as suas idéias, não seríamos nós a inculcar o recurso a um texto de segunda mão. Mas há muito que o tomismo ultrapassou as fronteiras do mundo eclesiástico onde o latim conserva ainda, como uma língua viva, o privilégio de ser lido e falado. Sacerdotes e leigos, católicos e não católicos, interessam-se cada vez mais vivamente por esta filosofia que, para ser apreciada em todo o seu valor, só quer ser conhecida em toda a sua plenitude. Foi esta exigência profunda de uma difusão mais ampla do pensamento tomista que tem inspirado sucessivamente as diferentes traduções da obra principal do Anjo das Escolas. Franceses, ingleses e alemães podem hoje lê-la vertida em seus idiomas.

Entre nós, onde as trevas do latim não são ainda facilmente devassáveis pela maior parte de nossos homens cultos, a necessidade afirma-se ainda com maior urgência e imperiosidade. Para levar a cabo, porém, tão árdua tarefa era mister, além de vontade enérgica, e disciplina na constância do trabalho, inteligência lúcida que ao conhecimento das duas línguas, latina e portuguesa, aliasse o domínio seguro do pensamento tomista.

Postular este conjunto raro de qualidades intelectuais e morais e lembrar o nome do Dr. Alexandre Corrêa é obedecer à mais espontânea das associações de quantos conhecem o cenário da cultura brasileira contemporânea.
O laureado pela Universidade de Lovaina, o professor carregado de benemerência da Universidade de São Paulo, da Faculade de Filosofia de S. Bento e da Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae” reúne, na solidez de sua formação humanista, a pujança do pensador à elegância do escritor de bom quilate.

O pensamento medieval não lhe é menos familiar que os segredos da língua do Lácio e a riqueza de recursos do nosso bom vernáculo. Com esta armadura o ilustre professor abalançou-se à grande empresa e, num esforço aturado de vários anos, levou-a felizmente a termo.

A posteridade agradecerá, penhorada, a quantos cooperaram para levar a cabo o grandioso cometimento e dotar a literatura brasileira, no domínio do pensamento filosófico, da mais preciosa de suas jóias.
P. Leonel Franca, S. J.

Glossário da música erudita

posted by Marcio Rosa in Música erudita

Baixo contínuo

A expressão baixo contínuo significa acompanhamento e, também, que não está totalmente desenvolvido na partitura.

Na época do seu surgimento, o Barroco, o importante era a melodia. Esta era a base de toda a obra musical e a ela se acrescentava um acompanhamento determinado em cuja partitura, não constavam totalmente as notas que deviam soar (especificava-se sobre uma delas, a mais baixa, apenas).

O baixo contínuo não faz referência a um instrumento concreto. Ele pode ser interpretado por um ou vários ao mesmo tempo. No barroco utilizava-se o cravo, dobrado muitas vezes por uma viola de gamba e/ou um violoncelo. O cello, por exemplo, se encarregava de tocar a nota básica, enquanto o cravo fazia soar as notas cifradas, cabendo ao executante deste instrumento um papel importante, devido à improvisação que poderia fazer.

Como o baixo determinava todo o caráter do acorde, junto com a melodia, se chamou de baixo contínuo.

Canção para várias vozes ou Composição vocal

Melodia acompanhada não por instrumentos, mas por outras vozes em harmonia.

Cantata

“Cantada”, em italiano. Obra vocal prolongada. Nos séculos XVII e XVIII a maioria delas eram para uso religioso ou eram escritas para voz solista com instrumentos ou orquestra. Nos séculos XIX e XX, a maioria delas passa a ser em grande escala, obras corais não religiosas para solistas e orquestra.

Cantochão ou Canto Gregoriano

É a mais antiga forma de música ocidental. Tipo de música vocal, eclesiástica, executada por coros em uníssono ou em solo, sem acompanhamento musical.

Canto homófono

Solo vocal, com baixo-contínuo.

Classicismo

Durante o século XVIII, época do Iluminismo, com a ascensão da nova classe social burguesa, começava a época da música para todos. O estilo galante, que consistia em uma única melodia, acompanhada por acordes breves e pouco variados, prenunciava as obras dos grandes autores do final do século.

Com o declínio do mecenato aristocrático, a música de câmara passou a se destinar, também, a um público mais amplo. A sinfonia, confiada a orquestras maiores, logo passou às salas de concerto.

Mozart representou, ao lado de Haydn, o classicismo vienense, arquétipo da época. Cultivou todos os gêneros da época com êxito incomparável.

O classicismo distinguiu-se sobretudo pela preponderância da obra instrumental e de composição simples sobre as peças litúrgicas e dramáticas.

Concerto grosso

Principal forma musical para orquestra do período barroco. Caracterizada pelo contraste entre um grupo reduzido de solistas e o conjunto da orquestra. Surgida na Itália na segunda metade do século XVII, teve em Corelli, Vivaldi e Haendel seus principais representantes.

Consorts

Escritos nos tempos medievais e da Renascença, são as mais antigas peças de música de câmara. O conjunto mais freqüente (de dois até cinco intérpretes) é o de instrumentos da mesma família. Os broken consorts reuniam instrumentos de famílias distintas. O consort, no século XVII, cedeu lugar à sonata.

Crescendo

Indica um aumento do som. É marcado na partitura com cres. ou com o sinal ” < “, que se abre na direção das notas que devem soar mais fortes.

Diminuendo

Indica que o som deve ir desaparecendo. Na partirura se indica com dim. ou com um o sinal ” > ” , que converge para  as notas que devem soar mais suaves.

Leitmotiv

Palavra alemã que significa “motivo condutor”. Criada por Hans von Wolzogen ao analisar as óperas de Richard Wagner, indica pequena frase melódica, harmônica ou rítmica que se repete durante a peça, de modo a ser memorizada pelo ouvinte e associada a uma idéia.

Lied

“Canção” em alemão. É música vocal mais elaborada, com acompanhamento de piano.
Certos lieder são musicalmente tão complexos quanto movimentos de uma sonata ou sinfonia. Alguns compositores do século XIX agruparam suas canções em conjuntos, os chamados ciclos de canções, que contavam o desenvolvimento de uma história ou tratavam de um tema. No final do século XIX o lied saiu dos salões particulares ou de recital e passou para as salas de concerto, com acompanhamento orquestral.

Matizes

Se a música não tivesse matizes soaria toda igual. Os matizes expressam a intensidade do som (crescendo, diminuendo, regulardores), forte, piano (suave), mezzoforte (meio forte), mezzopiano (meio suave), e toda uma gama de termos que servem para indicar a sonoridade.

Missa

Gênero de composição musical originalmente concebido para uso litúrgico e que, por isso, se apresenta dividido em partes que correspondem às do texto da missa católica, como o Kyrie, o Gloria, o Credo, o Sanctus, o Benedictus e o Agnus Dei.

Em seu desenvolvimento, o texto sacro pode ser interpretado por vozes a capela ou com o acompanhamento de órgão e de outros instrumentos.

A missa fúnebre recebe a denominação de réquiem e distingue-se das demais pela substituição do Gloria pelo Dies irae e pelo acréscimo de outros trechos do texto litúrgico, entre os quais o Libera, que marca o término.

Durante muito tempo predominou a polifonia vocal na música sacra, e as missas se executavam a capela, mas acredita-se que as obras compostas pelos mestres flamengos do século XV eram acompanhadas por órgão.

Gênero criado no século XIV. De início, os compositores acrescentaram ao acompanhamento a participação de grandes corais. Com a utilização, em seguida, de elementos do canto operístico, surgiu a missa chamada concertante, com solistas e orquestra sinfônica, à qual reagiu asperamente a Igreja Católica.

Música barroca

Seu início confunde-se com o nascimento da ópera, que utilizava o canto homófono.

A homofonia se tornaria o ponto chave da revolução estética barroca. A afirmação definitiva do canto homófono sobre a polifonia correspondeu a uma transformação básica no pensamento musical, que tornou possível o surgimento de idéias e formas completamente novas:

a) a ópera e a cantata, esta última derivada do madrigal;
b) um novo sistema composicional (o tonalismo);
c) a música puramente instrumental (sem palavras) e livre das estruturas formais próprias à literatura;
d) a ascensão do intérprete solista à categoria de criador, autorizado a improvisar.

O barroco musical uniu a música ao espetáculo, que atingiu o esplendor com a ópera veneziana, arte suntuosa e aristocrática.

No século XVII, Frescobaldi explorou a forma arquitetônica da tocata. Ele e Pachelbel estruturaram as bases para o ressurgimento da polifonia no barroco tardio.

A polifonia instrumental e vocal foram elevadas por Bach e Haendel ao ponto máximo, no chamado barroco tardio. Ambos pareceram anacrônicos em seu tempo, mas foram grandes reconstrutores: os últimos e maiores nomes da música barroca, produziram os resultados definitivos desse estilo.

Música coral

Executada por um coro, uma orquestra de vozes em que diversas pessoas cantam a mesma linha de notas ao mesmo tempo.

Música coral sacra

Nas igrejas cristãs, o entoar (metade fala, metade canto), chamado de cantochão, foi usado durante dezessete séculos. Por volta dos séculos XV e XVI, enriquecido com linhas de acompanhamento de diferentes notas, transformou-se numa suntuosa forma de arte. Progressão similar aconteceu na música protestante.

No oratório foi-se mais longe.

Música coral secular

É a música coral não religiosa, celebrando temas mais terrenos, como o amor, batalhas, etc.

Floresceu nos séculos XIX e XX, quando o agnosticismo ou o ateísmo se tornaram mais aceitáveis.

Usa as mesmas formas e estilos da música coral sacra.

A ode é um tipo de música coral secular.

 Música vocal

Usa vozes solistas. A mais simples de todas as músicas vocais é a canção folclórica.

No século XIX a popularidade da cantata declinou, sendo substituída pelo lied (”canção”, em alemão), mais elaborado, com acompanhamento de piano.

 Música de câmara

Chamavam-se câmaras os aposentos dos príncipes e de mecenas aristocráticos, onde se executava música instrumental profana, em oposição à música sacra, executada na igreja.

Contrariamente às sinfonias, ou óperas, que requerem, para serem executadas, ambientes amplos, a música de câmara pode ser executada em espaços menores.

Geralmente envolve a participação de dois até doze executantes.

Até o século XVIII era escrita geralmente para a interpretação de amadores.

A partir da segunda metade do século XVIII, define-se como música instrumental com número limitado de executantes e para audição em salas menores. As formas mais simples são as duo-sonatas, para instrumento de cordas acompanhado por instrumento de teclas.

Atribuí-se a Haydn a criação da moderna música de câmara e da sinfonia em sua estrutura definitiva. Introduziu a forma sonata em todos os gêneros da música camerística e aboliu o baixo contínuo.

No século XIX, devido à sua crescente complexidade, passou a exigir intérpretes de real capacidade profissional, época em que deixa os salões das casas de famílias e ganha as salas de concertos.

Tipos: consorts, sonatas e trio-sonatas, quartetos, quintetos, etc.

Ode

Tipo suntuoso de música coral secular com solista, coro e orquestra, visando a marcar uma grande ocasião (coroação, p. ex.) ou uma ocasião trivial (travessia de um canal por um monarca, p. ex.).

Oratório

É uma obra de música coral, originalmente sobre tema bíblico, com características dramáticas análogas às da ópera. A narração é interrompida por árias, duetos e coros que exprimem musicalmente os estados de alma dos personagens. Executado à maneira concertante, não se representa e prescinde de decoração cenográfica.

Foi executada pela primeira vez, no século XVI, na igreja do Oratório, em Roma. Daí o nome.

Deve-se a Haendel a criação das maiores obras-primas do gênero.

Paixões

São oratórios de natureza especial. São versões musicadas de um dos quatro evangelhos canônicos sobre a Paixão de Cristo.

Nascido na Alemanha luterana do século XVII, o gênero teve seus maiores representantes em Bach e Telemann.

Polifonia

É a estrutura musical em que duas ou mais partes melódicas (chamadas vozes, embora possam ser entregues a instrumentos) evoluem de forma relativamente autônoma.

Caracteriza as obras musicais anteriores ao século XVII e foi retomada, a partir do final do século XIX, pelos compositores do atonalismo e do dodecafonismo.

Embora polifônicos, o madrigal italiano e o antigo lied alemão já prenunciavam a melodia acompanhada. A percepção harmônica, ou seja, da verticalidade sonora, começava a despertar.

A afirmação da música harmônica caracterizou o barroco. Os instrumentos, embora procedessem contrapontisticamente, despertavam a sensibilidade do ouvinte para a coluna sonora que se erguia verticalmente. A fuga adaptou as técnicas imitativas do motete à lógica funcional do tonalismo e se tornou a forma mais complexa e importante do período.

O advento do tonalismo e da harmonia, no entanto, alterou as maneiras de compor, e as formas polifônicas foram gradativamente passando a segundo plano.

No início do século XX, as regras harmônicas foram frontalmente postas em questão por movimentos como o atonalismo e o dodecafonismo. A revalorização das técnicas polifônicas foi uma das numerosas conseqüências da transformação do pensamento musical a partir de então.

Quartetos, quintetos, etc.

No século XVIII com a substituição do baixo contínuo (violoncelo e cravo) pelo piano, acrescido das violas, trompas ou clarinetas, surgem os quartetos e quintetos de cordas, bem como os quintetos de sopro.

Réquiem

“Requiem aeternam dona eis, Domine…” (Dá-lhes o eterno repouso, Senhor…). A primeira palavra do intróito em latim da missa dos mortos é requiem (”repouso”), o que deu origem à expressão “missa de réquiem”.

É uma missa católica na qual se pede pelo descanso eterno das almas dos mortos. Sua estrutura é essencialmente a mesma das outras missas, com algumas modificações: não se cantam o Gloria e o Credo; após o Tractus é executada a grande seqüência Dies irae, dies illa; em certas ocasiões, depois da missa, segue-se a “encomendação”, com o texto Libera me.

As missas de réquiem com acompanhamento instrumental surgiram depois de 1650. O réquiem de Verdi é a mais dramática das obras do gênero.

Sinfonia

Obra orquestral em um ou mais movimentos (normalmente quatro), amplamente organizada num ciclo completo: cada um de seus movimentos se liga aos demais.

Sonata

Até a década de 1650 significava a abreviação de “música sonata” (música para ser soada, ou seja, tocada em instrumento), contrastando com a “música cantata” (música cantada).

Foi então que tornou-se uma forma musical, peça para apenas um instrumento (geralmente o teclado), ou para um ou dois instrumentos solistas com acompanhamento de teclado. A maioria das sonatas tem três ou quatro movimentos. Com o tempo, as obras com movimentos de danças vieram a ser chamadas de suítes.

Com a progressiva substituição do cravo pelo piano, na segunda metade do século XVIII, o estilo das sonatas mudou completamente. O contínuo deixou de ser usado, tornado-se o piano o instrumento acompanhador padrão, com a música para ambas as mãos totalmente escrita. As sonatas-solo (para teclado apenas) tornaram-se comuns.

Sonatinas

São sonatas escritas para fins didáticos ou para executantes não virtuoses.

Suíte

“Seqüência”, em francês. Grupo de movimentos juntos numa única obra. Nos séculos XVII e XVIII, a maioria das suítes eram grupos de danças; nos séculos XIX e XX surgem as seleções de óperas, balés, ou música incidental.

Tocata

“Tocada”, em italiano. Peça solista de exibição, habitualmente para teclado, criada para demonstrar a criatividade do compositor e a destreza do executante. Comum nos séculos XVI e XVII. No século XIX foi substituída pela sonata.

Zarzuela

É um gênero teatral, tipicamente espanhol, entre o drama e a ópera, que alterna trechos declamados com canções, corais e danças. Sua estrutura dramática e musical guarda semelhanças com a opereta italiana, a ópera cômica francesa, e os musicais alemão e inglês. O gênero surgiu no século XVII como entretenimento aristocrático, dedicado a temas heróicos e mitológicos, e seu nome provém da residência real de La Zarzuela, perto de Madrid, onde se deram as primeiras apresentações.

A ascensão da ópera italiana provocou um período de decadência, a partir do final do século XVIII. Ressurgiria em meados do século XIX, diferenciada das obras barrocas anteriores por abordar principalmente temas e personagens populares e incluir elementos do folclore nas músicas e danças.

Introdução sobre Música

posted by Marcio Rosa in Teoria Musical

Música é a arte de expressar nossos sentimentos através dos sons e a Teoria é o conjunto de conhecimentos que propõe explicar, elucidar e interpretar o que ocorre nesta atividade prática e é uma importante ferramenta na formação de conceito, metodologia de estudo, maneira de pensar e entender o que fazemos em outras palavras é a parte científica do estudo da música.

Veja algumas citações que procuram descrever o sentido da música em diferentes formas de pensamentos:

A música é um meio mais poderoso do que qualquer outro porque o ritmo e a harmonia têm a sua sede na alma. Ela enriquece esta última, confere-lhe a graça e ilumina aquele que recebe uma verdadeira educação.
Platão (n. Atenas ? 427; m. 347 a. C.)

A música tem o poder de formar a personalidade e podem-se distinguir os diferentes gêneros de música fundados em diferentes modos pelos seus efeitos sobre o caráter.
Aristóteles (n. Estagira 384 a. C.; m. 322 a. C.)

Mesmo que toda a natureza esteja adormecida, o que a contempla não dorme, e a arte do músico consiste em substituir a imagem insensível do objecto pela dos movimentos que a sua presença excita no coração do contemplador: não só ele agitará o mar, animará a chama de um fogo, fará correr os ribeiros, cair a chuva e aumentar as torrentes, como pintará o horror de um deserto medonho, denegrirá os muros de uma prisão subterrânea, acalmará a tempestade, tornará tranqüilo e sereno o ar e da orquestra espargirá nova frescura sobre os bosques…
Jean Jacques Rousseau (n. Genève 1712; m. 1778)

A música é um exercício de metafísica inconsciente, no qual o espírito não sabe que está a fazer filosofia.
Arthur Schopennhauer (n. Danzig 1788; m. Francoforte 1860)

Toda a música tem por Idéia a forma do Nome divino. Oração desmitificada, liberta da magia do efeito, a música representa a tentativa humana, por mais vâ que ela seja, de enunciar o próprio Nome em vez de comunicar significações.
Theodor Wiesengrund Adorno (n. Francoforte 1903; m. Suiça 1969)

O texto deve ser o senhor e não o servo da música.
Caudio Monteverdi (n. Cremona 1567; m. Veneza 1643)

Nada pode impedir-me de apreciar e desenvolver tudo o que os grandes mestres deixaram atrás de si, porque não faria sentido para cada um recomeçar do princípio; mas é preciso que seja um desenvolvimento ao melhor nível das minhas capacidades e não uma repetição inútil do que já foi.
Felix Mendelssohn-Bartholdy (n. Hamburgo 1809; m. Leipzig 1947)

A música é para as outras artes, no seu conjunto, o que a religião é para a igreja.
Richard Wagner (n. Leipzig 1813; m. Veneza 1883)

A minha ideia é que há música no ar, há música à nossa volta, o mundo está cheio de música e cada um tira para si simplesmente aquela de que precisa.
Edward Elgar (n. 1857; m. 1934)

Houve e há, apesar das desordens que a civilização traz, pequenos povos encantadores que aprendem música tão naturalmente como se aprende a respirar. O seu conservatório é o ritmo eterno do mar, o vento nas folhas e mil pequenos ruídos que escutaram com atenção, sem jamais terem lido despóticos tratados.
Claude Débussy (n. Saint Germain-en-Laye 1862; m. Paris 1918)

A música expulsa o ódio dos que vivem sem amor. Dá paz aos que não têm descanso e consola os que choram. Os que se perderam encontram novos caminhos, e os que tudo rejeitam reencontram confiança e esperança.
Pablo Casals (n. Vendrell 1876; m. Rio Piedras, Porto Rico 1973)

A faculdade de criar nunca nos é dada sozinha. Ela anda sempre acompanhada do dom da observação.
Igor Stravinsky (n. Ornienbaum 1882; n. Nova Iorque 1971)

Considero minhas obras como cartas que escrevi à posteridade, sem esperar resposta.
Heitor Villa-Lobos (n. Rio de Janeiro 1887; Rio de Janeiro 1959)

A surdez de Beethoven não era uma deficiência. Foi uma dádiva dos Céus. Incapaz de escutar as vozes exteriores, estava em condições de ouvir dentro de si próprio a voz de Deus.
Vitaly Margulis (n. Charkov, Ucránia 1928)

A relação entre a vida e a morte é a mesma que existe entre o silêncio e a música - o silêncio precede a música e sucede-lhe.
Daniel Baremboim (n. Buenos Aires 1942)

A música é uma prova de Deus.
Rão Kyao (n. Lisboa 1946-)

Quando soam as cordas do seu instrumento, doces e suaves, então dissolvem-se as dores de quem sofre.
Da epopeia dos Nibelungos (c. 1200)

Sete sacerdotes, tocando sete trombetas, irão à frente da arca. No sétimo dia, dareis sete vezes a volta à cidade, com os sacerdotes a tocar a trombeta. À medida que o som da trombeta for crescendo, e a sua voz se tornar mais penetrante, todo o povo irromperá num grande clamor e a muralha da cidade desabará.
Jos. 6, 4-5

Mande nosso senhor e os servos que te assistem irão buscar um homem que saiba dedilhar a lira e, quando o mau espírito da parte de Deus te atormentar,ele tocará e tu te sentirás melhor. Então Saúl disse aos servos: Procurai pois um homem que toque bem e trazei-mo. Um dos seus servos pediu para falar e disse: Tenho visto um filho de Jessé, o belemita, que sabe tocar e é um valente guerreiro, fala bem, é de bela aparência e Iahweh está com ele. Saul despachou logo mensageiros a Jessé com esta ordem: Manda-me o teu filho David (que está com o rebanho).
1 Sam 16, 16-1

Os levitas cantores, Asaf, Heman, Idutun e os seus filhos e irmãos, vestidos de linnho fino, colocados a leste do altar, tocavam címbalos, cítaras e harpas, acopanhados por cento e vinte sacerdotes que tocavam trombetas. Todos os tocadores de trombeta e os cantores se uniam para entoar, numa mesma sinfonia, o louvor do Senhor, entre o ressoar das trombetas, dos címbalos e dos outros instrumentos musicais; e cantavam: Louvor ao Senhor porque é bom e a sua misericórdia é eterna.
2 Crón., 5,13

Louvai o Senhor com a cítara,
cantai-Lhe salmos ao som da harpa.
Cantai-Lhe um cântico novo,
Cantai-Lhe com arte e com alma.
Salmo 32

É bom louvar o Senhor
E cantar salmos ao vosso nome, ó Altíssimo,
proclamar pela manhã a vossa bondade
e durante a noite a vossa fidelidade
ao som da harpa e da lira
e com as melodias da cítara.
Salmo 91

Sobre os rios de Babilônia nos sentamos a chorar,
com saudades de Sião.
Nos salgueiros das margens
dependuramos nossas harpas.
Aqueles que nos levaram cativos
queriam ouvir os nossos cânticos
e os nossos opressores uma canção de alegria:
“cantai-nos um cântico de Sião”.
Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor
em terra estrangeira?
Salmo 136

Louvai-O ao som da trombeta,
louvai-O ao som da lira e da cítara.
Louvai-O com o tímpano e com a dança,
Louvai-O ao som da harpa e da flauta.
Louvai-O com címbalos sonoros,
Louvai-O com címbalos retumbantes.
Tudo quanto respira louve ao Senhor.
Salmo 150

Nenhum instrumento, por mais exímio que seja, pode superar a voz humana ao expimir os sentimentos da alma.
Pio XI (n. Desio 1857; m. Roma 1939)

Platão asseverava que a música é “a expressão da ordem e da simetria, a qual, através do corpo, penetra na alma e em todo o ser, revelando-lhe a harmonia de sua personalidade total”.

Música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão
Música: do coração vem, ao coração se destina.
A música é capaz de reproduzir em sua forma real, a dor que dilacera a alma e o sorriso que inebria.
Beethoven

Ouvir música devota é ter Deus presente em toda a sua benevolência
À Glória de Deus
(Bach - Partituras manuscritas)

Deixem-me compor as músicas de um país e não me preocuparei com quem faça suas leis. Platão escreveu, em “A República”:

A arte de manifestar os diversos afetos de nossa alma mediante ao som
Paschoal Bona

Algo muito difícil de mostrar ao mundo o que sentimos em nós mesmos Tchaikovsky

Uma coisa que se tem pra vida toda, mas não toda uma vida pra conhecê-la Rachmaninov

Nada é mais odioso que a música sem um significado escondido.
Chopin

Erram as pessoas que pensam que minha arte me vem com facilidade. Eu lhe garanto, querido amigo, que ninguém devotou tanto tempo e pensamento à composição quanto eu. Não há um único mestre famoso cuja música eu não tenha estudado muitas vezes.
Para conseguir aplausos, é preciso escrever algo tão insignificante a ponto de poder ser cantado por um cocheiro, ou tão ininteligível que agrade precisamente porque ninguém de bom senso é capaz de compreendê-lo.
Mozart

Pretendem os aficcionados entenderem um problema sobre qual os artistas pensaram dias,meses ou anos?
Schumann

A música expressa a natureza inconsciente deste e de outros mundos.
Schoenberg

O mais alto louvor numa linguagem que a razão não compreende
Marcio Rosa

Deve-se olhar para as notas para saber onde tocá-las, para achar seu sentido deve-se olhar atráz delas!
Horowitz

Lançamento do Método de Violino Marcio Rosa

posted by Marcio Rosa in Violino

Agora já tenho a data de lançamento do primeiro volume do meu método para violino em 5 volumes, a partir do mês de setembro estará venda nas livrarias e na internet. Veja o que vem por ai:

Nos volumes:

Volume 1 – Estudos Elementares
Volume 2 – Estudos Avançados
Volume 3 – Terceira e segunda Posições
Volume 4 – Quarta e Quinta Posições
Volume 5 – Sexta e Sétima Posições

Na Internet:

Fóruns
Gestão de conteúdos (Recursos em Áudio e Video)
Questionários e pesquisas com diversos formatos
Blogs
Wikis
Sondagens
Chat
Glossários

Santo Agostinho

posted by Marcio Rosa in Teologia

A Vida e as Obras

Aurélio Agostinho destaca-se entre os Padres como Tomás de Aquino se destaca entre os Escolásticos. E como Tomás de Aquino se inspira na filosofia de Aristóteles, e será o maior vulto da filosofia metafísica cristã, Agostinho inspira-se em Platão, ou melhor, no neoplatonismo. Agostinho, pela profundidade do seu sentir e pelo seu gênio compreensivo, fundiu em si mesmo o caráter especulativo da patrística grega com o caráter prático da patrística latina, ainda que os problemas que fundamentalmente o preocupam sejam sempre os problemas práticos e morais: o mal, a liberdade, a graça, a predestinação.

Aurélio Agostinho nasceu em Tagasta, cidade da Numídia, de uma família burguesa, a 13 de novembro do ano 354. Seu pai, Patrício, era pagão, recebido o batismo pouco antes de morrer; sua mãe, Mônica, pelo contrário, era uma cristã fervorosa, e exercia sobre o filho uma notável influência religiosa. Indo para Cartago, a fim de aperfeiçoar seus estudos, começados na pátria, desviou-se moralmente. Caiu em uma profunda sensualidade, que, segundo ele, é uma das maiores conseqüências do pecado original; dominou-o longamente, moral e intelectualmente, fazendo com que aderisse ao maniqueísmo, que atribuía realidade substancial tanto ao bem como ao mal, julgando achar neste dualismo maniqueu a solução do problema do mal e, por conseqüência, uma justificação da sua vida. Tendo terminado os estudos, abriu uma escola em Cartago, donde partiu para Roma e, em seguida, para Milão. Afastou-se definitivamente do ensino em 386, aos trinta e dois anos, por razões de saúde e, mais ainda, por razões de ordem espiritual.

Entrementes - depois de maduro exame crítico - abandonara o maniqueísmo, abraçando a filosofia neoplatônica que lhe ensinou a espiritualidade de Deus e a negatividade do mal. Destarte chegara a uma concepção cristã da vida - no começo do ano 386. Entretanto a conversão moral demorou ainda, por razões de luxúria. Finalmente, como por uma fulguração do céu, sobreveio a conversão moral e absoluta, no mês de setembro do ano 386. Agostinho renuncia inteiramente ao mundo, à carreira, ao matrimônio; retira-se, durante alguns meses, para a solidão e o recolhimento, em companhia da mãe, do filho e dalguns discípulos, perto de Milão. Aí escreveu seus diálogos filosóficos, e, na Páscoa do ano 387, juntamente com o filho Adeodato e o amigo Alípio, recebeu o batismo em Milão das mãos de Santo Ambrósio, cuja doutrina e eloqüência muito contribuíram para a sua conversão. Tinha trinta e três anos de idade.

Depois da conversão, Agostinho abandona Milão, e, falecida a mãe em Óstia, volta para Tagasta. Aí vendeu todos os haveres e, distribuído o dinheiro entre os pobres, funda um mosteiro numa das suas propriedades alienadas. Ordenado padre em 391, e consagrado bispo em 395, governou a igreja de Hipona até à morte, que se deu durante o assédio da cidade pelos vândalos, a 28 de agosto do ano 430. Tinha setenta e cinco anos de idade.

Após a sua conversão, Agostinho dedicou-se inteiramente ao estudo da Sagrada Escritura, da teologia revelada, e à redação de suas obras, entre as quais têm lugar de destaque as filosóficas. As obras de Agostinho que apresentam interesse filosófico são, sobretudo, os diálogos filosóficos: Contra os acadêmicos, Da vida beata, Os solilóquios, Sobre a imortalidade da alma, Sobre a quantidade da alma, Sobre o mestre, Sobre a música . Interessam também à filosofia os escritos contra os maniqueus: Sobre os costumes, Do livre arbítrio, Sobre as duas almas, Da natureza do bem .

Dada, porém, a mentalidade agostiniana, em que a filosofia e a teologia andam juntas, compreende-se que interessam à filosofia também as obras teológicas e religiosas, especialmente: Da Verdadeira Religião, As Confissões, A Cidade de Deus, Da Trindade, Da Mentira.

O Pensamento: A Gnosiologia

Agostinho considera a filosofia praticamente, platonicamente, como solucionadora do problema da vida, ao qual só o cristianismo pode dar uma solução integral. Todo o seu interesse central está portanto, circunscrito aos problemas de Deus e da alma, visto serem os mais importantes e os mais imediatos para a solução integral do problema da vida.

O problema gnosiológico é profundamente sentido por Agostinho, que o resolve, superando o ceticismo acadêmico mediante o iluminismo platônico. Inicialmente, ele conquista uma certeza: a certeza da própria existência espiritual; daí tira uma verdade superior, imutável, condição e origem de toda verdade particular. Embora desvalorizando, platonicamente, o conhecimento sensível em relação ao conhecimento intelectual, admite Agostinho que os sentidos, como o intelecto, são fontes de conhecimento. E como para a visão sensível além do olho e da coisa, é necessária a luz física, do mesmo modo, para o conhecimento intelectual, seria necessária uma luz espiritual. Esta vem de Deus, é a Verdade de Deus, o Verbo de Deus, para o qual são transferidas as idéias platônicas. No Verbo de Deus existem as verdades eternas, as idéias, as espécies, os princípios formais das coisas, e são os modelos dos seres criados; e conhecemos as verdades eternas e as idéias das coisas reais por meio da luz intelectual a nós participada pelo Verbo de Deus. Como se vê, é a transformação do inatismo, da reminiscência platônica, em sentido teísta e cristão. Permanece, porém, a característica fundamental, que distingue a gnosiologia platônica da aristotélica e tomista, pois, segundo a gnosiologia platônica-agostiniana, não bastam, para que se realize o conhecimento intelectual humano, as forças naturais do espírito, mas é mister uma particular e direta iluminação de Deus.

A Metafísica

Em relação com esta gnosiologia, e dependente dela, a existência de Deus é provada, fundamentalmente, a priori , enquanto no espírito humano haveria uma presença particular de Deus. Ao lado desta prova a priori , não nega Agostinho as provas a posteriori da existência de Deus, em especial a que se afirma sobre a mudança e a imperfeição de todas as coisas. Quanto à natureza de Deus, Agostinho possui uma noção exata, ortodoxa, cristã: Deus é poder racional infinito, eterno, imutável, simples, espírito, pessoa, consciência, o que era excluído pelo platonismo. Deus é ainda ser, saber, amor. Quanto, enfim, às relações com o mundo, Deus é concebido exatamente como livre criador. No pensamento clássico grego, tínhamos um dualismo metafísico; no pensamento cristão - agostiniano - temos ainda um dualismo, porém moral, pelo pecado dos espíritos livres, insurgidos orgulhosamente contra Deus e, portanto, preferindo o mundo a Deus. No cristianismo, o mal é, metafisicamente, negação, privação; moralmente, porém, tem uma realidade na vontade má, aberrante de Deus. O problema que Agostinho tratou, em especial, é o das relações entre Deus e o tempo. Deus não é no tempo, o qual é uma criatura de Deus: o tempo começa com a criação. Antes da criação não há tempo, dependendo o tempo da existência de coisas que vem-a-ser e são, portanto, criadas.

Também a psicologia agostiniana harmonizou-se com o seu platonismo cristão. Por certo, o corpo não é mau por natureza, porquanto a matéria não pode ser essencialmente má, sendo criada por Deus, que fez boas todas as coisas. Mas a união do corpo com a alma é, de certo modo, extrínseca, acidental: alma e corpo não formam aquela unidade metafísica, substancial, como na concepção aristotélico-tomista, em virtude da doutrina da forma e da matéria. A alma nasce com o indivíduo humano e, absolutamente, é uma específica criatura divina, como todas as demais. Entretanto, Agostinho fica indeciso entre o criacionismo e o traducionismo, isto é, se a alma é criada diretamente por Deus, ou provém da alma dos pais. Certo é que a alma é imortal, pela sua simplicidade. Agostinho, pois, distingue, platonicamente, a alma em vegetativa, sensitiva e intelectiva, mas afirma que elas são fundidas em uma substância humana. A inteligência é divina em intelecto intuitivo e razão discursiva; e é atribuída a primazia à vontade. No homem a vontade é amor, no animal é instinto, nos seres inferiores cego apetite.

Quanto à cosmologia, pouco temos a dizer. Como já mais acima se salientou, a natureza não entra nos interesses filosóficos de Agostinho, preso pelos problemas éticos, religiosos, Deus e a alma. Mencionaremos a sua famosa doutrina dos germes específicos dos seres - rationes seminales . Deus, a princípio, criou alguns seres já completamente realizados; de outros criou as causas que, mais tarde, desenvolvendo-se, deram origem às existências dos seres específicos. Esta concepção nada tem que ver com o moderno evolucionismo , como alguns erroneamente pensaram, porquanto Agostinho admite a imutabilidade das espécies, negada pelo moderno evolucionismo.

A Moral

Evidentemente, a moral agostiniana é teísta e cristã e, logo, transcendente e ascética. Nota característica da sua moral é o voluntarismo, a saber, a primazia do prático, da ação - própria do pensamento latino - , contrariamente ao primado do teorético, do conhecimento - próprio do pensamento grego. A vontade não é determinada pelo intelecto, mas precede-o. Não obstante, Agostinho tem também atitudes teoréticas como, por exemplo, quando afirma que Deus, fim último das criaturas, é possuído por um ato de inteligência. A virtude não é uma ordem de razão, hábito conforme à razão, como dizia Aristóteles, mas uma ordem do amor.

Entretanto a vontade é livre, e pode querer o mal, pois é um ser limitado, podendo agir desordenadamente, imoralmente, contra a vontade de Deus. E deve-se considerar não causa eficiente, mas deficiente da sua ação viciosa, porquanto o mal não tem realidade metafísica. O pecado, pois, tem em si mesmo imanente a pena da sua desordem, porquanto a criatura, não podendo lesar a Deus, prejudica a si mesma, determinando a dilaceração da sua natureza. A fórmula agostiniana em torno da liberdade em Adão - antes do pecado original - é: poder não pecar ; depois do pecado original é: não poder não pecar ; nos bem-aventurados será: não poder pecar . A vontade humana, portanto, já é impotente sem a graça. O problema da graça - que tanto preocupa Agostinho - tem, além de um interesse teológico, também um interesse filosófico, porquanto se trata de conciliar a causalidade absoluta de Deus com o livre arbítrio do homem. Como é sabido, Agostinho, para salvar o primeiro elemento, tende a descurar o segundo.

Quanto à família , Agostinho, como Paulo apóstolo, considera o celibato superior ao matrimônio; se o mundo terminasse por causa do celibato, ele alegrar-se-ia, como da passagem do tempo para a eternidade. Quanto à política , ele tem uma concepção negativa da função estatal; se não houvesse pecado e os homens fossem todos justos, o Estado seria inútil. Consoante Agostinho, a propriedade seria de direito positivo, e não natural. Nem a escravidão é de direito natural, mas conseqüência do pecado original, que perturbou a natureza humana, individual e social. Ela não pode ser superada naturalmente, racionalmente, porquanto a natureza humana já é corrompida; pode ser superada sobrenaturalmente, asceticamente, mediante a conformação cristã de quem é escravo e a caridade de quem é amo.

O Mal

Agostinho foi profundamente impressionado pelo problema do mal - de que dá uma vasta e viva fenomenologia. Foi também longamente desviado pela solução dualista dos maniqueus, que lhe impediu o conhecimento do justo conceito de Deus e da possibilidade da vida moral. A solução deste problema por ele achada foi a sua libertação e a sua grande descoberta filosófico-teológica, e marca uma diferença fundamental entre o pensamento grego e o pensamento cristão. Antes de tudo, nega a realidade metafísica do mal. O mal não é ser, mas privação de ser, como a obscuridade é ausência de luz. Tal privação é imprescindível em todo ser que não seja Deus, enquanto criado, limitado. Destarte é explicado o assim chamado mal metafísico , que não é verdadeiro mal, porquanto não tira aos seres o lhes é devido por natureza. Quanto ao mal físico , que atinge também a perfeição natural dos seres, Agostinho procura justificá-lo mediante um velho argumento, digamos assim, estético: o contraste dos seres contribuiria para a harmonia do conjunto. Mas é esta a parte menos afortunada da doutrina agostiniana do mal.

Quanto ao mal moral, finalmente existe realmente a má vontade que livremente faz o mal; ela, porém, não é causa eficiente, mas deficiente, sendo o mal não-ser. Este não-ser pode unicamente provir do homem, livre e limitado, e não de Deus, que é puro ser e produz unicamente o ser. O mal moral entrou no mundo humano pelo pecado original e atual; por isso, a humanidade foi punida com o sofrimento, físico e moral, além de o ter sido com a perda dos dons gratuitos de Deus. Como se vê, o mal físico tem, deste modo, uma outra explicação mais profunda. Remediou este mal moral a redenção de Cristo, Homem-Deus, que restituiu à humanidade os dons sobrenaturais e a possibilidade do bem moral; mas deixou permanecer o sofrimento, conseqüência do pecado, como meio de purificação e expiação. E a explicação última de tudo isso - do mal moral e de suas conseqüências - estaria no fato de que é mais glorioso para Deus tirar o bem do mal, do que não permitir o mal. Resumindo a doutrina agostiniana a respeito do mal, diremos: o mal é, fundamentalmente, privação de bem (de ser); este bem pode ser não devido (mal metafísico) ou devido (mal físico e moral) a uma determinada natureza; se o bem é devido nasce o verdadeiro problema do mal; a solução deste problema é estética para o mal físico, moral (pecado original e Redenção) para o mal moral (e físico).

A História

Como é notório, Agostinho trata do problema da história na Cidade de Deus , e resolve-o ainda com os conceitos de criação, de pecado original e de Redenção. A Cidade de Deus representa, talvez, o maior monumento da antigüidade cristã e, certamente, a obra prima de Agostinho. Nesta obra é contida a metafísica original do cristianismo, que é uma visão orgânica e inteligível da história humana. O conceito de criação é indispensável para o conceito de providência, que é o governo divino do mundo; este conceito de providência é, por sua vez, necessário, a fim de que a história seja suscetível de racionalidade. O conceito de providência era impossível no pensamento clássico, por causa do basilar dualismo metafísico. Entretanto, para entender realmente, plenamente, o plano da história, é mister a Redenção, graças aos quais é explicado o enigma da existência do mal no mundo e a sua função. Cristo tornara-se o centro sobrenatural da história: o seu reino, a cidade de Deus , é representada pelo povo de Israel antes da sua vinda sobre a terra, e pela Igreja depois de seu advento. Contra este cidade se ergue a cidade terrena , mundana, satânica, que será absolutamente separada e eternamente punida nos fins dos tempos.

Agostinho distingue em três grandes seções a história antes de Cristo. A primeira concerne à história das duas cidades , após o pecado original, até que ficaram confundidas em um único caos humano, e chega até a Abraão, época em que começou a separação. Na Segunda descreve Agostinho a história da cidade de Deus , recolhida e configurada em Israel, de Abraão até Cristo. A terceira retoma, em separado, a narrativa do ponto em que começa a história da Cidade de Deus separada, isto é, desde Abraão, para tratar paralela e separadamente da Cidade do mundo, que culmina no império romano. Esta história, pois, fragmentária e dividida, onde parece que Satanás e o mal têm o seu reino, representa, no fundo, uma unidade e um progresso. É o progresso para Cristo, sempre mais claramente, conscientemente e divinamente esperado e profetizado em Israel; e profetizado também, a seu modo, pelos povos pagãos, que, consciente ou inconscientemente, lhe preparavam diretamente o caminho. Depois de Cristo cessa a divisão política entre as duas cidades ; elas se confundem como nos primeiros tempos da humanidade, com a diferença, porém, de que já não é mais união caótica, mas configurada na unidade da Igreja. Esta não é limitada por nenhuma divisão política, mas supera todas as sociedades políticas na universal unidade dos homens e na unidade dos homens com Deus. A Igreja, pois, é acessível, invisivelmente, também às almas de boa vontade que, exteriormente, dela não podem participar. A Igreja transcende, ainda, os confins do mundo terreno, além do qual está a pátria verdadeira. Entretanto, visto que todos, predestinados e ímpios, se encontram empiricamente confundidos na Igreja - ainda que só na unidade dialética das duas cidades , para o triunfo da Cidade de Deus - a divisão definitiva, eterna, absoluta, justíssima, realizar-se-á nos fins dos tempos, depois da morte, depois do juízo universal, no paraíso e no inferno. É uma grande visão unitária da história, não é uma visão filosófica, mas teológica: é uma teologia, não uma filosofia da história.

São Tomás de Aquino

posted by Marcio Rosa in Teologia

A Vida e as Obras

Após uma longa preparação e um desenvolvimento promissor, a escolástica chega ao seu ápice com Tomás de Aquino. Adquire plena consciência dos poderes da razão, e proporciona finalmente ao pensamento cristão uma filosofia. Assim, converge para Tomás de Aquino não apenas o pensamento escolástico, mas também o pensamento patrístico, que culminou com Agostinho, rico de elementos helenistas e neoplatônicos, além do patrimônio de revelação judaico-cristã, bem mais importante.

Para Tomás de Aquino, porém, converge diretamente o pensamento helênico, na sistematização imponente de Aristóteles. O pensamento de Aristóteles, pois, chega a Tomás de Aquino enriquecido com os comentários pormenorizados, especialmente árabes.

Nasceu Tomás em 1225, no castelo de Roccasecca, na Campânia, da família feudal dos condes de Aquino. Era unido pelos laços de sangue à família imperial e às famílias reais de França, Sicília e Aragão. Recebeu a primeira educação no grande mosteiro de Montecassino, passando a mocidade em Nápoles como aluno daquela universidade. Depois de ter estudado as artes liberais, entrou na ordem dominicana, renunciando a tudo, salvo à ciência. Tal acontecimento determinou uma forte reação por parte de sua família; entretanto, Tomás triunfou da oposição e se dedicou ao estudo assíduo da teologia, tendo como mestre Alberto Magno, primeiro na universidade de Paris (1245-1248) e depois em Colônia.

Também Alberto , filho da nobre família de duques de Bollstädt (1207-1280), abandonou o mundo e entrou na ordem dominicana. Ensinou em Colônia, Friburgo, Estrasburgo, lecionou teologia na universidade de Paris, onde teve entre os seus discípulos também Tomás de Aquino, que o acompanhou a Colônia, aonde Alberto foi chamado para lecionar no estudo geral de sua ordem. A atividade científica de Alberto Magno é vastíssima: trinta e oito volumes tratando dos assuntos mais variados - ciências naturais, filosofia, teologia, exegese, ascética.

Em 1252 Tomás voltou para a universidade de Paris, onde ensinou até 1269, quando regressou à Itália, chamado à corte papal. Em 1269 foi de novo à universidade de Paris, onde lutou contra o averroísmo de Siger de Brabante; em 1272, voltou a Nápoles, onde lecionou teologia. Dois anos depois, em 1274, viajando para tomar parte no Concílio de Lião, por ordem de Gregório X, faleceu no mosteiro de Fossanova, entre Nápoles e Roma. Tinha apenas quarenta e nove anos de idade.

As obras do Aquinate podem-se dividir em quatro grupos:

1. Comentários: à lógica, à física, à metafísica, à ética de Aristóteles; à Sagrada Escritura; a Dionísio pseudo-areopagita; aos quatro livros das sentenças de Pedro Lombardo.

2. Sumas: Suma Contra os Gentios , baseada substancialmente em demonstrações racionais; Suma Teológica , começada em 1265, ficando inacabada devido à morte prematura do autor.

3. Questões: Questões Disputadas (Da verdade , Da alma , Do mal , etc.); Questões várias .

4. Opúsculos: Da Unidade do Intelecto Contra os Averroístas ; Da Eternidade do Mundo , etc.

    O Pensamento: A Gnosiologia

    Diversamente do agostinianismo, e em harmonia com o pensamento aristotélico, Tomás considera a filosofia como uma disciplina essencialmente teorética, para resolver o problema do mundo. Considera também a filosofia como absolutamente distinta da teologia, - não oposta - visto ser o conteúdo da teologia arcano e revelado, o da filosofia evidente e racional.

    A gnosiologia tomista - diversamente da agostiniana e em harmonia com a aristotélica - é empírica e racional, sem inatismos e iluminações divinas. O conhecimento humano tem dois momentos, sensível e intelectual, e o segundo pressupõe o primeiro. O conhecimento sensível do objeto, que está fora de nós, realiza-se mediante a assim chamada espécie sensível . Esta é a impressão, a imagem, a forma do objeto material na alma, isto é, o objeto sem a matéria: como a impressão do sinete na cera, sem a materialidade do sinete; a cor do ouro percebido pelo olho, sem a materialidade do ouro.

    O conhecimento intelectual depende do conhecimento sensível, mas transcende-o. O intelecto vê em a natureza das coisas - intus legit - mais profundamente do que os sentidos, sobre os quais exerce a sua atividade. Na espécie sensível - que representa o objeto material na sua individualidade, temporalidade, espacialidade, etc., mas sem a matéria - o inteligível, o universal, a essência das coisas é contida apenas implicitamente, potencialmente. Para que tal inteligível se torne explícito, atual, é preciso extraí-lo, abstraí-lo, isto é, desindividualizá-lo das condições materiais. Tem-se, deste modo, a espécie inteligível , representando precisamente o elemento essencial, a forma universal das coisas.

    Pelo fato de que o inteligível é contido apenas potencialmente no sensível, é mister um intelecto agente que abstraia, desmaterialize, desindividualize o inteligível do fantasma ou representação sensível. Este intelecto agente é como que uma luz espiritual da alma, mediante a qual ilumina ela o mundo sensível para conhecê-lo; no entanto, é absolutamente desprovido de conteúdo ideal, sem conceitos diferentemente de quanto pretendia o inatismo agostiniano. E, ademais, é uma faculdade da alma individual, e não noa advém de fora, como pretendiam ainda i iluminismo agostiniano e o panteísmo averroísta. O intelecto que propriamente entende o inteligível, a essência, a idéia, feita explícita, desindividualizada pelo intelecto agente, é o intelecto passivo , a que pertencem as operações racionais humanas: conceber, julgar, raciocinar, elaborar as ciências até à filosofia.

    Como no conhecimento sensível, a coisa sentida e o sujeito que sente, formam uma unidade mediante a espécie sensível, do mesmo modo e ainda mais perfeitamente, acontece no conhecimento intelectual, mediante a espécie inteligível, entre o objeto conhecido e o sujeito que conhece. Compreendendo as coisas, o espírito se torna todas as coisas, possui em si, tem em si mesmo imanentes todas as coisas, compreendendo-lhes as essências, as formas.

    É preciso claramente salientar que, na filosofia de Tomás de Aquino, a espécie inteligível não é a coisa entendida, quer dizer, a representação da coisa (id quod intelligitur) , pois, neste caso, conheceríamos não as coisas, mas os conhecimentos das coisas, acabando, destarte, no fenomenismo. Mas, a espécie inteligível é o meio pelo qual a mente entende as coisas extramentais (é, logo, id quo intelligitur ). E isto corresponde perfeitamente aos dados do conhecimento, que nos garante conhecermos coisas e não idéias; mas as coisas podem ser conhecidas apenas através das espécies e das imagens, e não podem entrar fisicamente no nosso cérebro.

    O conceito tomista de verdade é perfeitamente harmonizado com esta concepção realista do mundo, e é justificado experimentalmente e racionalmente. A verdade lógica não está nas coisas e nem sequer no mero intelecto, mas na adequação entre a coisa e o intelecto: veritas est adaequatio speculativa mentis et rei . E tal adequação é possível pela semelhança entre o intelecto e as coisas, que contêm um elemento inteligível, a essência, a forma, a idéia. O sinal pelo qual a verdade se manifesta à nossa mente, é a evidência; e, visto que muitos conhecimentos nossos não são evidentes, intuitivos, tornam-se verdadeiros quando levados à evidência mediante a demonstração.

    Todos os conhecimentos sensíveis são evidentes, intuitivos, e, por conseqüência, todos os conhecimentos sensíveis são, por si, verdadeiros. Os chamados erros dos sentidos nada mais são que falsas interpretações dos dados sensíveis, devidas ao intelecto. Pelo contrário, no campo intelectual, poucos são os nossos conhecimentos evidentes. São certamente evidentes os princípios primeiros (identidade, contradição, etc.). Os conhecimentos não evidentes são reconduzidos à evidência mediante a demonstração, como já dissemos. É neste processo demonstrativo que se pode insinuar o erro, consistindo em uma falsa passagem na demonstração, e levando, destarte, à discrepância entre o intelecto e as coisas.

    A demonstração é um processo dedutivo, isto é, uma passagem necessária do universal para o particular. No entanto, os universais, os conceitos, as idéias, não são inatas na mente humana, como pretendia o agostinianismo, e nem sequer são inatas suas relações lógicas, mas se tiram fundamentalmente da experiência, mediante a indução, que colhe a essência das coisas. A ciência tem como objeto esta essência das coisas, universal e necessária.
    A Metafísica

    A metafísica tomista pode-se dividir em geral e especial. A metafísica geral - ou ontologia - tem como objeto o ser em geral e as atribuições e leis relativas. A metafísica especial estuda o ser em suas grandes especificações: Deus, o espírito, o mundo. Daí temos a teologia racional - assim chamada, para distingui-la da teologia revelada; a psicologia racional (racional, porquanto é filosofia e se deve distinguir da moderna psicologia empírica, que é ciência experimental); a cosmologia ou filosofia da natureza (que estuda a natureza em suas causas primeiras, ao passo que a ciência experimental estuda a natureza em suas causas segundas).

    O princípio básico da ontologia tomista é a especificação do ser em potência e ato. Ato significa realidade, perfeição; potência quer dizer não-realidade, imperfeição. Não significa, porém, irrealidade absoluta, mas imperfeição relativa de mente e capacidade de conseguir uma determinada perfeição, capacidade de concretizar-se. Tal passagem da potência ao ato é o vir-a-ser , que depende do ser que é ato puro; este não muda e faz com que tudo exista e venha-a-ser. Opõe-se ao ato puro a potência pura que, de per si, naturalmente é irreal, é nada, mas pode tornar-se todas as coisas, e chama-se matéria.
    A Natureza

    Uma determinação, especificação do princípio de potência e ato, válida para toda a realidade, é o princípio da matéria e de forma. Este princípio vale unicamente para a realidade material, para o mundo físico, e interessa portanto especialmente à cosmologia tomista. A matéria não é absoluto, não-ente; é, porém, irreal sem a forma, pela qual é determinada, como a potência é determinada, como a potência é determinada pelo ato. É necessária para a forma, a fim de que possa existir um ser completo e real (substância ). A forma é a essência das coisas (água, ouro, vidro) e é universal. A individuação, a concretização da forma, essência, em vários indivíduos, que só realmente existem (esta água, este ouro, este vidro), depende da matéria, que portanto representa o princípio de individuação no mundo físico. Resume claramente Maritain esta doutrina com as palavras seguintes: “Na filosofia de Aristóteles e Tomás de Aquino, toda substância corpórea é um composto de duas partes substanciais complementares, uma passiva e em si mesma absolutamente indeterminada ( a matéria ), outra ativa e determinante ( a forma )” .

    Além destas duas causas constitutivas (matéria e forma), os seres materiais têm outras duas causas: a causa eficiente e a causa final. A causa eficiente é a que faz surgir um determinado ser na realidade, é a que realiza o sínolo , a saber, a síntese daquela determinada matéria com a forma que a especifica. A causa final é o fim para que opera a causa eficiente; é esta causa final que determina a ordem observada no universo. Em conclusão: todo ser material existe pelo concurso de quatro causas - material , formal , eficiente , final ; estas causas constituem todo ser na realidade e na ordem com os demais seres do universo físico.

    O Espírito

    Quando a forma é princípio da vida, que é uma atividade cuja origem está dentro do ser, chama-se alma . Portanto, têm uma alma as plantas (alma vegetativa: que se alimenta, cresce e se reproduz), e os animais (alma sensitiva: que, a mais da alma vegetativa, sente e se move). Entretanto, a psicologia racional , que diz respeito ao homem, interessa apenas a alma racional. Além de desempenhar as funções da alma vegetativa e sensitiva, a alma racional entende e quer, pois segundo Tomás de Aquino, existe uma forma só e, por conseguinte, uma alma só em cada indivíduo; e a alma superior cumpre as funções da alma inferior, como a mais contém o menos.

    No homem existe uma alma espiritual - unida com o corpo, mas transcendendo-o - porquanto além das atividades vegetativa e sensitiva, que são materiais, se manifestam nele também atividades espirituais, como o ato do intelecto e o ato da vontade. A atividade intelectiva é orientada para entidades imateriais, como os conceitos; e, por conseqüência, esta atividade tem que depender de um princípio imaterial, espiritual, que é precisamente a alma racional. Assim, a vontade humana é livre, indeterminada - ao passo que o mundo material é regido por leis necessárias. E, portanto, a vontade não pode ser senão a faculdade de um princípio imaterial, espiritual, ou seja, da alma racional, que pelo fato de ser imaterial, isto é, espiritual, não é composta de partes e, por conseguinte, é imortal.

    Como a alma espiritual transcende a vida do corpo depois da morte deste, isto é, é imortal, assim transcende a origem material do corpo e é criada imediatamente por Deus, com relação ao respectivo corpo já formado, que a individualiza. Mas, diversamente do dualismo platônico-agostiniano, Tomás sustenta que a alma, espiritual embora, é unida substancialmente ao corpo material, de que é a forma. Desse modo o corpo não pode existir sem a alma, nem viver, e também a alma, por sua vez, ainda que imortal, não tem uma vida plena sem o corpo, que é o seu instrumento indispensável.

    Deus

    Como a cosmologia e a psicologia tomistas dependem da doutrina fundamental da potência e do ato, mediante a doutrina da matéria e da forma, assim a teologia racional tomista depende - e mais intimamente ainda - da doutrina da potência e do ato. Contrariamente à doutrina agostiniana que pretendia ser Deus conhecido imediatamente por intuição, Tomás sustenta que Deus não é conhecido por intuição, mas é cognoscível unicamente por demonstração; entretanto esta demonstração é sólida e racional, não recorre a argumentações a priori , mas unicamente a posteriori , partindo da experiência, que sem Deus seria contraditória.

    As provas tomistas da experiência de Deus são cinco: mas todas têm em comum a característica de se firmar em evidência (sensível e racional), para proceder à demonstração, como a lógica exige. E a primeira dessas provas - que é fundamental e como que norma para as outras - baseia-se diretamente na doutrina da potência e do ato. “Cada uma delas se firma em dois elementos, cuja solidez e evidência são igualmente incontestáveis: uma experiência sensível, que pode ser a constatação do movimento, das causas, do contingente, dos graus de perfeição das coisas ou da ordem que entre elas reina; e uma aplicação do princípio de causalidade, que suspende o movimento ao imóvel, as causas segundas à causa primeira, o contingente ao necessário, o imperfeito ao perfeito, a ordem à inteligência ordenadora”.

    Se conhecermos apenas indiretamente, pelas provas, a existência de Deus, ainda mais limitado é o conhecimento que temos da essência divina, como sendo a que transcende infinitamente o intelecto humano. Segundo o Aquinate, antes de tudo sabemos o que Deus não é (teologia negativa), entretanto conhecemos também algo de positivo em torno da natureza de Deus, graças precisamente à famosa doutrina da analogia. Esta doutrina é solidamente baseada no fato de que o conhecimento certo de Deus se deve realizar partindo das criaturas, porquanto o efeito deve Ter semelhança com a causa. A doutrina da analogia consiste precisamente em atribuir a Deus as perfeições criadas positivas, tirando, porém, as imperfeições, isto é, toda limitação e toda potencialidade. O que conhecemos a respeito de Deus é, portanto, um conjunto de negações e de analogias; e não é falso, mas apenas incompleto.

    Quanto ao problemas das relações entre Deus e o mundo, é resolvido com base no conceito de criação, que consiste numa produção do mundo por parte de Deus, total, livre e do nada.

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