Século XVIII
O classicismo
A reforma da ópera
Os concertos públicos
SÉCULO XVIII
O CLASSICISMO
O primeiro concerto para público anônimo
Sonata-forma, sinfonia, concerto e quarteto
A nova polifonia instrumental
A reforma da ópera. A importância de Gluck
Paris e o estilo empire
O fim do século XVIII. Os concertos públicos
No século XVIII a literatura e as artes plásticas já tinham abandonado o estilo barroco. Por volta de 1735, o estilo dominante na Europa era ainda o rococó, último derivado do estilo barroco. Logo depois viria o pré-romantismo.
As formas musicais do barroco não serviam como expressão à nova mentalidade. Os filhos de Bach foram os primeiros a abandonar a arte polifônica do pai.
O primeiro concerto para público anônimo
Johann Christian Bach (1735-1782), o filho mais novo, foi um compositor típico do rococó, um pré-clássico que teve grande influência sobre a vida musical inglêsa. Foi o primeiro a substituir o cravo pelo piano no concerto para solista e orquestra.
Em 1768 tocou, pela primeira vez, um concerto para piano e orquestra perante público anônimo, admitido mediante pagamento de ingressos. Era o fim da música escrita apenas para a câmara de príncipes e aristocratas.
Suas sonatas, concertos, e sinfonias foram importantes na evolução dessas formas e influenciaram Haydn e não só. Em Londres, quem o ouviu tocar foi o jovem Mozart que, certamente ficou impressionado pois, o estilo de Mozart é, na verdade, johann-christian-bachiano.
Carl Philipp Emanuel Bach (1714-1788), o segundo filho de Bach, chegou a ser um dos mais respeitados solistas da época. No final do século XVIII era o compositor mais famoso na Alemanha do Norte. Suas composições mais importantes são as sonatas e fantasias, escritas para seu instrumento favorito, o cravo. Esses trabalhos ajudaram na transição do estilo barroco de seu pai para o estilo clássico de Mozart e Haydn.
Sonata-forma, sinfonia, concerto e quarteto
A música instrumental barroca não conhecia nenhum princípio de desenvolvimento temático. O tema inventado pelo compositor era colocado em determinada situação polifônica (tomado e retomado pelas várias vozes instrumentais) e em determinada situação de orquestração (tomado e retomado pelos solistas e pelos tutti); depois de esgotadas todas as possibilidades dessa situação inicial, o movimento estava terminado. Um bom exemplo dessa construção está nos Concertos de Brandenburgo. A reunião de vários trechos instrumentais para formarem um obra inteira era arbitrária.
A sonata-forma foi desenvolvida por Carl Philipp Emanuel Bach. Inicialmente criou o novo princípio de construção do primeiro movimento, o mais longo e mais importante de uma sonata. O tema é sumariamente exposto, depois muda de tonalidade, continuando o seu desenvolvimento. Mais tarde introduziu um segundo tema, contrastante, que entra em espécie de luta dramática com o primeiro. Está criada a sonata-forma completa, que logo começa a dominar toda a música instrumental.
A sinfonia é uma sonata para orquestra.
O concerto, agora muito diferente dos concertos de Bach e Vivaldi, é uma sonata para um solista com acompanhamento da orquestra.
O quarteto, a sonata para quatro instrumentos de corda, será acrescentado por Haydn.
Joseph Haydn (1732-1809) foi um dos maiores compositores do período clássico. Começou tocando violino em pequenas bandas sem baixo-contínuo, onde nenhum dos músicos desempenhava o papel de solista-virtuose (o que valia era o conjunto). Essa independência das cordas em relação ao baixo-contínuo, assim como a importância dada ao conjunto instrumental, fez com que a música barroca chegasse ao fim.
A nova polifonia instrumental
Haydn elabora uma nova polifonia instrumental com a finalidade de dar coesão ao quarteto e à sinfonia, sem o apoio do baixo-contínuo. O princípio de construção será a sonata-forma de Carl Philipp Emanuel Bach. Usando só os instrumentos, Haydn fala o idioma da música sacra italiana da época precedente, ou seja, seus temas são cantáveis. É o começo da música moderna.
A repercussão de sua obra foi grande. Na Áustria todos eram haydnianos, inclusive o jovem Mozart.
A reforma da ópera. A importância de Gluck
A renovação da música instrumental por Haydn não atingiu o gênero da ópera, que seguia a rotina dos tempos de Scarlatti.
Havia alguma vida nova apenas na ópera buffa, que florescia em Veneza, que era, então, a capital européia de diversões. Os “donos” da ópera, mais apreciados que os próprios compositores, eram os cantores, sobretudo os castrados como Farinelli e Crescentini.
Johann Adolf Hasse (1699-1783) foi o mais popular compositor de óperas italianas, no estilo napolitano, do século XVIII. Discípulo de Alessandro Scarlatti, foi, também, cantor profissional de ópera (tenor) e excelente cravista.
Domenico Cimarosa (1749-1801) é um dos pais da ópera cômica.
Outros grandes nomes da época são Giuseppe Sarti (1729-1802), Baldassare Galuppi (1706-1783), Giovanni Paësiello (1740-1816).
O teatro foi, talvez, a maior preocupação artística do século XVIII. Possuir um teatro nacional foi a suprema ambição da Alemanha e da Itália. A ópera não podia ficar esquecida.
O neoclassicismo da época de Winckelmann desejava restabelecer a pureza do teatro musical, desfigurado pelas vaidades dos cantores italianos. E já a tendência pré-romântica exigia “sentimento verdadeiro” em vez das expressões estereotipadas da rotina operística.
A tradição classicista na França foi, no campo da música, humilhada pela invasão italiana.
Jean-Philippe Rameau (1683-1764) foi o mais importante compositor e teórico francês do século XVIII. Tem, em sua obra, uma reação classicista e nacionalista àquela invasão italiana. Juntamente com Alessandro Scarlatti e Bach, é fundador da música “moderna”. Seu Traîté d’harmonie (1722) é a base teórica do sistema tonal que continuará em vigor até Schoenberg.
Niccolo Jommelli (1714-1774) foi um eminente compositor de óperas da escola napolitana. Seguidor de Alessandro Scarlatti, desenvolveu um estilo mais sério que a maioria de seus contemporâneos, fazendo mais uso da orquestra, usando uma harmonia mais rica e dependendo menos da invariável ária da capo, que ele considerava não-dramática. Foi o primeiro a fazer consistente uso de acompanhamento orquestral no recitativo. Sob a influência de Rameau fez reformas nos coros. Sob a influência do grupo de Mannheim fez reformas na instrumentação. Seu estilo teve alguma influência na formação do estilo clássico no fim do século XVIII.
Tommaso Traëtta (1727-1779), em Antigone (1772) adota os princípios da reforma de Gluck.
Christoph Willibald Gluck (1714-1787) foi um dos maiores reformadores da ópera. Em 1741 compôs Artaserse, ainda no estilo italiano, com árias da capo para as vozes únicas dos castrati.
Em seu programa de reforma da ópera, em vez das intrigas amorosas que complicavam os textos, os enredos mitológicos deveriam ser da maior simplicidade e de mais forte efeito trágico, sem a vazia pompa barrôca, os arabescos do bel canto exibicionista dos virtuoses do canto. Em vez de uma seqüência mal conectada de episódios, procurava-se um efeito continuamente dramático. A um determinado texto só uma determinada música poderia corresponder, ao contrário do que se fazia até então, quando cada libreto de Metastasio foi posto em música por dez, vinte e mais compositores, sucessivamente e das maneiras mais diferentes.
Compôs seis óperas “reformadas”, todas com temas colhidos na mitologia grega, e elas o tornaram um dos compositores mais admirados em toda a Europa de seu tempo. Gluck pretendia representar no palco a verdade da vida, embora por meio de símbolos mitológicos.
Seu trabalho abriu caminho para as grandes óperas do século XIX, como, por exemplo, os dramas musicais de Wagner e as obras de Verdi e Puccini. Purificou a ópera, conferindo ao gênero a dignidade do teatro clássico francês. Era a volta à simplicidade clássica dos florentinos, que inventaram o gênero.
Gluck não é barroco, é contemporâneo do novo classicismo inaugurado por Winckelmann.
Nicola Piccinni (1728-1800) inicialmente foi rival de Gluck. Mais tarde tornou-se discípulo do rival: Didon abandonnée (1783) é uma obra-prima na estilo gluckiano.
Paris e o estilo empire
A adesão dos pré-românticos Piccinni e Rousseau a Gluck significa o advento de nova fase estilística: o classicismo do século XVIII, vivificado pelo espírito pré-romântico da Revolução Francesa, dá o Estilo Empire, da época de Napoleão. Seu centro é Paris.
Antonio Maria Sacchini (1730-1786) é o primeiro representante desse estilo, logo seguido por Étienne-Nicolas Méhul (1763-1817).
Mario Luigi Carlo Zenobio Salvatore Cherubini (1760-1842) em 1788 desenvolveu um novo e sério estilo operístico, primeiro em italiano, depois em francês. A moda musical mudou para o estilo romântico, o qual Cherubini foi incapaz de adotar completamente, o que fez suas composições ficarem esquecidas até o século XX.
Gaspare Luigi Pacifico Spontini (1774-1851) foi o principal compositor de ópera francesa no florido e, frequentemente melodramático, estilo que dominava Paris durante o tempo da Revolução e do Primeiro Império. Compositor favorito de Napoleão, foi o último dos gluckianos, com o qual termina o predomínio dos italianos na ópera européia.
Antonio Salieri (1750-1825), discípulo de Gluck, foi professor de Beethoven, de Schubert e de Liszt. Escreveu óperas em italiano, francês e alemão. Após 1804 voltou-se para a música sacra e instrumental.
Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), embora influenciado por todas as correntes de sua época, não pertence a nenhuma delas. As suas obras instrumentais, no geral, têm valor inferior; são trabalhos de rotina ou por encomenda. Embora riquíssimo em invenção melódica, sua melodia nem sempre é pessoal. Isto porque no século XVIII, antes do pré-romantismo, não se exigia originalidade nem genialidade (conceitos românticos). Por isso se confunde, facilmente, Mozart com outros compositores da sua época, como J. C. Bach, de quem sofreu influência. Mozart escreveu seguindo o estilo do seu tempo. Ele próprio se considerava, antes de qualquer outra coisa, como um compositor de ópera.
O fim do século XVIII. Os concertos públicos
Termina o século XVIII e surge um novo público. Em 1760, J. C. Bach funda em Londres a primeira empresa para organizar concertos públicos. Logo a seguir, Paris, Viena e Berlim seguem o exemplo. A Igreja, a corte monárquica e o palácio do aristocrata perdem a função de mecenas que encomenda obras ao artista.
No século XIX, o compositor enfrenta o público, que não encomendou nada mas que espera, apenas, algo de novo. Este novo público é a burguesia.
A Revolução Francesa (1789) serviria como data para essas mudanças. Beethoven, no entanto, ainda vive no ambiente aristocrático de Viena. Sua mudança só começou depois de 1814, ano do Congresso de Viena, que marca o fim das monarquias aristocráticas.
Ludwig van Beethoven (1770-1827), em 1814, ano do Congresso de Viena, já é reconhecido como o maior compositor do século. Substituiu o terceiro movimento das obras sinfônicas e camerísticas (o minueto de Haydn e Mozart), pelo scherzo, forma de música humorística, modificação essa que já tinha ocorrido em alguns quartetos de Haydn. Em suas mãos, a sonata-forma passa a ser, em alguns casos, veículo da expressão de todas as emoções possíveis. Suas dez aberturas são como um resumo de seu estilo musical, bem como das emoções e sentimentos que exprimiu em obras mais extensas. Foi um clássico e não um romântico, como defendem os franceses. Não foi revolucionário, pouco inovou; apenas alargou as formas de Haydn, do qual foi sucessor.