Glossário da música erudita
Baixo contínuo
A expressão baixo contínuo significa acompanhamento e, também, que não está totalmente desenvolvido na partitura.
Na época do seu surgimento, o Barroco, o importante era a melodia. Esta era a base de toda a obra musical e a ela se acrescentava um acompanhamento determinado em cuja partitura, não constavam totalmente as notas que deviam soar (especificava-se sobre uma delas, a mais baixa, apenas).
O baixo contínuo não faz referência a um instrumento concreto. Ele pode ser interpretado por um ou vários ao mesmo tempo. No barroco utilizava-se o cravo, dobrado muitas vezes por uma viola de gamba e/ou um violoncelo. O cello, por exemplo, se encarregava de tocar a nota básica, enquanto o cravo fazia soar as notas cifradas, cabendo ao executante deste instrumento um papel importante, devido à improvisação que poderia fazer.
Como o baixo determinava todo o caráter do acorde, junto com a melodia, se chamou de baixo contínuo.
Canção para várias vozes ou Composição vocal
Melodia acompanhada não por instrumentos, mas por outras vozes em harmonia.
Cantata
“Cantada”, em italiano. Obra vocal prolongada. Nos séculos XVII e XVIII a maioria delas eram para uso religioso ou eram escritas para voz solista com instrumentos ou orquestra. Nos séculos XIX e XX, a maioria delas passa a ser em grande escala, obras corais não religiosas para solistas e orquestra.
Cantochão ou Canto Gregoriano
É a mais antiga forma de música ocidental. Tipo de música vocal, eclesiástica, executada por coros em uníssono ou em solo, sem acompanhamento musical.
Canto homófono
Solo vocal, com baixo-contínuo.
Classicismo
Durante o século XVIII, época do Iluminismo, com a ascensão da nova classe social burguesa, começava a época da música para todos. O estilo galante, que consistia em uma única melodia, acompanhada por acordes breves e pouco variados, prenunciava as obras dos grandes autores do final do século.
Com o declínio do mecenato aristocrático, a música de câmara passou a se destinar, também, a um público mais amplo. A sinfonia, confiada a orquestras maiores, logo passou às salas de concerto.
Mozart representou, ao lado de Haydn, o classicismo vienense, arquétipo da época. Cultivou todos os gêneros da época com êxito incomparável.
O classicismo distinguiu-se sobretudo pela preponderância da obra instrumental e de composição simples sobre as peças litúrgicas e dramáticas.
Concerto grosso
Principal forma musical para orquestra do período barroco. Caracterizada pelo contraste entre um grupo reduzido de solistas e o conjunto da orquestra. Surgida na Itália na segunda metade do século XVII, teve em Corelli, Vivaldi e Haendel seus principais representantes.
Consorts
Escritos nos tempos medievais e da Renascença, são as mais antigas peças de música de câmara. O conjunto mais freqüente (de dois até cinco intérpretes) é o de instrumentos da mesma família. Os broken consorts reuniam instrumentos de famílias distintas. O consort, no século XVII, cedeu lugar à sonata.
Crescendo
Indica um aumento do som. É marcado na partitura com cres. ou com o sinal ” < “, que se abre na direção das notas que devem soar mais fortes.
Diminuendo
Indica que o som deve ir desaparecendo. Na partirura se indica com dim. ou com um o sinal ” > ” , que converge para as notas que devem soar mais suaves.
Leitmotiv
Palavra alemã que significa “motivo condutor”. Criada por Hans von Wolzogen ao analisar as óperas de Richard Wagner, indica pequena frase melódica, harmônica ou rítmica que se repete durante a peça, de modo a ser memorizada pelo ouvinte e associada a uma idéia.
Lied
“Canção” em alemão. É música vocal mais elaborada, com acompanhamento de piano.
Certos lieder são musicalmente tão complexos quanto movimentos de uma sonata ou sinfonia. Alguns compositores do século XIX agruparam suas canções em conjuntos, os chamados ciclos de canções, que contavam o desenvolvimento de uma história ou tratavam de um tema. No final do século XIX o lied saiu dos salões particulares ou de recital e passou para as salas de concerto, com acompanhamento orquestral.
Matizes
Se a música não tivesse matizes soaria toda igual. Os matizes expressam a intensidade do som (crescendo, diminuendo, regulardores), forte, piano (suave), mezzoforte (meio forte), mezzopiano (meio suave), e toda uma gama de termos que servem para indicar a sonoridade.
Missa
Gênero de composição musical originalmente concebido para uso litúrgico e que, por isso, se apresenta dividido em partes que correspondem às do texto da missa católica, como o Kyrie, o Gloria, o Credo, o Sanctus, o Benedictus e o Agnus Dei.
Em seu desenvolvimento, o texto sacro pode ser interpretado por vozes a capela ou com o acompanhamento de órgão e de outros instrumentos.
A missa fúnebre recebe a denominação de réquiem e distingue-se das demais pela substituição do Gloria pelo Dies irae e pelo acréscimo de outros trechos do texto litúrgico, entre os quais o Libera, que marca o término.
Durante muito tempo predominou a polifonia vocal na música sacra, e as missas se executavam a capela, mas acredita-se que as obras compostas pelos mestres flamengos do século XV eram acompanhadas por órgão.
Gênero criado no século XIV. De início, os compositores acrescentaram ao acompanhamento a participação de grandes corais. Com a utilização, em seguida, de elementos do canto operístico, surgiu a missa chamada concertante, com solistas e orquestra sinfônica, à qual reagiu asperamente a Igreja Católica.
Música barroca
Seu início confunde-se com o nascimento da ópera, que utilizava o canto homófono.
A homofonia se tornaria o ponto chave da revolução estética barroca. A afirmação definitiva do canto homófono sobre a polifonia correspondeu a uma transformação básica no pensamento musical, que tornou possível o surgimento de idéias e formas completamente novas:
a) a ópera e a cantata, esta última derivada do madrigal;
b) um novo sistema composicional (o tonalismo);
c) a música puramente instrumental (sem palavras) e livre das estruturas formais próprias à literatura;
d) a ascensão do intérprete solista à categoria de criador, autorizado a improvisar.
O barroco musical uniu a música ao espetáculo, que atingiu o esplendor com a ópera veneziana, arte suntuosa e aristocrática.
No século XVII, Frescobaldi explorou a forma arquitetônica da tocata. Ele e Pachelbel estruturaram as bases para o ressurgimento da polifonia no barroco tardio.
A polifonia instrumental e vocal foram elevadas por Bach e Haendel ao ponto máximo, no chamado barroco tardio. Ambos pareceram anacrônicos em seu tempo, mas foram grandes reconstrutores: os últimos e maiores nomes da música barroca, produziram os resultados definitivos desse estilo.
Música coral
Executada por um coro, uma orquestra de vozes em que diversas pessoas cantam a mesma linha de notas ao mesmo tempo.
Música coral sacra
Nas igrejas cristãs, o entoar (metade fala, metade canto), chamado de cantochão, foi usado durante dezessete séculos. Por volta dos séculos XV e XVI, enriquecido com linhas de acompanhamento de diferentes notas, transformou-se numa suntuosa forma de arte. Progressão similar aconteceu na música protestante.
No oratório foi-se mais longe.
Música coral secular
É a música coral não religiosa, celebrando temas mais terrenos, como o amor, batalhas, etc.
Floresceu nos séculos XIX e XX, quando o agnosticismo ou o ateísmo se tornaram mais aceitáveis.
Usa as mesmas formas e estilos da música coral sacra.
A ode é um tipo de música coral secular.
Música vocal
Usa vozes solistas. A mais simples de todas as músicas vocais é a canção folclórica.
No século XIX a popularidade da cantata declinou, sendo substituída pelo lied (”canção”, em alemão), mais elaborado, com acompanhamento de piano.
Música de câmara
Chamavam-se câmaras os aposentos dos príncipes e de mecenas aristocráticos, onde se executava música instrumental profana, em oposição à música sacra, executada na igreja.
Contrariamente às sinfonias, ou óperas, que requerem, para serem executadas, ambientes amplos, a música de câmara pode ser executada em espaços menores.
Geralmente envolve a participação de dois até doze executantes.
Até o século XVIII era escrita geralmente para a interpretação de amadores.
A partir da segunda metade do século XVIII, define-se como música instrumental com número limitado de executantes e para audição em salas menores. As formas mais simples são as duo-sonatas, para instrumento de cordas acompanhado por instrumento de teclas.
Atribuí-se a Haydn a criação da moderna música de câmara e da sinfonia em sua estrutura definitiva. Introduziu a forma sonata em todos os gêneros da música camerística e aboliu o baixo contínuo.
No século XIX, devido à sua crescente complexidade, passou a exigir intérpretes de real capacidade profissional, época em que deixa os salões das casas de famílias e ganha as salas de concertos.
Tipos: consorts, sonatas e trio-sonatas, quartetos, quintetos, etc.
Ode
Tipo suntuoso de música coral secular com solista, coro e orquestra, visando a marcar uma grande ocasião (coroação, p. ex.) ou uma ocasião trivial (travessia de um canal por um monarca, p. ex.).
Oratório
É uma obra de música coral, originalmente sobre tema bíblico, com características dramáticas análogas às da ópera. A narração é interrompida por árias, duetos e coros que exprimem musicalmente os estados de alma dos personagens. Executado à maneira concertante, não se representa e prescinde de decoração cenográfica.
Foi executada pela primeira vez, no século XVI, na igreja do Oratório, em Roma. Daí o nome.
Deve-se a Haendel a criação das maiores obras-primas do gênero.
Paixões
São oratórios de natureza especial. São versões musicadas de um dos quatro evangelhos canônicos sobre a Paixão de Cristo.
Nascido na Alemanha luterana do século XVII, o gênero teve seus maiores representantes em Bach e Telemann.
Polifonia
É a estrutura musical em que duas ou mais partes melódicas (chamadas vozes, embora possam ser entregues a instrumentos) evoluem de forma relativamente autônoma.
Caracteriza as obras musicais anteriores ao século XVII e foi retomada, a partir do final do século XIX, pelos compositores do atonalismo e do dodecafonismo.
Embora polifônicos, o madrigal italiano e o antigo lied alemão já prenunciavam a melodia acompanhada. A percepção harmônica, ou seja, da verticalidade sonora, começava a despertar.
A afirmação da música harmônica caracterizou o barroco. Os instrumentos, embora procedessem contrapontisticamente, despertavam a sensibilidade do ouvinte para a coluna sonora que se erguia verticalmente. A fuga adaptou as técnicas imitativas do motete à lógica funcional do tonalismo e se tornou a forma mais complexa e importante do período.
O advento do tonalismo e da harmonia, no entanto, alterou as maneiras de compor, e as formas polifônicas foram gradativamente passando a segundo plano.
No início do século XX, as regras harmônicas foram frontalmente postas em questão por movimentos como o atonalismo e o dodecafonismo. A revalorização das técnicas polifônicas foi uma das numerosas conseqüências da transformação do pensamento musical a partir de então.
Quartetos, quintetos, etc.
No século XVIII com a substituição do baixo contínuo (violoncelo e cravo) pelo piano, acrescido das violas, trompas ou clarinetas, surgem os quartetos e quintetos de cordas, bem como os quintetos de sopro.
Réquiem
“Requiem aeternam dona eis, Domine…” (Dá-lhes o eterno repouso, Senhor…). A primeira palavra do intróito em latim da missa dos mortos é requiem (”repouso”), o que deu origem à expressão “missa de réquiem”.
É uma missa católica na qual se pede pelo descanso eterno das almas dos mortos. Sua estrutura é essencialmente a mesma das outras missas, com algumas modificações: não se cantam o Gloria e o Credo; após o Tractus é executada a grande seqüência Dies irae, dies illa; em certas ocasiões, depois da missa, segue-se a “encomendação”, com o texto Libera me.
As missas de réquiem com acompanhamento instrumental surgiram depois de 1650. O réquiem de Verdi é a mais dramática das obras do gênero.
Sinfonia
Obra orquestral em um ou mais movimentos (normalmente quatro), amplamente organizada num ciclo completo: cada um de seus movimentos se liga aos demais.
Sonata
Até a década de 1650 significava a abreviação de “música sonata” (música para ser soada, ou seja, tocada em instrumento), contrastando com a “música cantata” (música cantada).
Foi então que tornou-se uma forma musical, peça para apenas um instrumento (geralmente o teclado), ou para um ou dois instrumentos solistas com acompanhamento de teclado. A maioria das sonatas tem três ou quatro movimentos. Com o tempo, as obras com movimentos de danças vieram a ser chamadas de suítes.
Com a progressiva substituição do cravo pelo piano, na segunda metade do século XVIII, o estilo das sonatas mudou completamente. O contínuo deixou de ser usado, tornado-se o piano o instrumento acompanhador padrão, com a música para ambas as mãos totalmente escrita. As sonatas-solo (para teclado apenas) tornaram-se comuns.
Sonatinas
São sonatas escritas para fins didáticos ou para executantes não virtuoses.
Suíte
“Seqüência”, em francês. Grupo de movimentos juntos numa única obra. Nos séculos XVII e XVIII, a maioria das suítes eram grupos de danças; nos séculos XIX e XX surgem as seleções de óperas, balés, ou música incidental.
Tocata
“Tocada”, em italiano. Peça solista de exibição, habitualmente para teclado, criada para demonstrar a criatividade do compositor e a destreza do executante. Comum nos séculos XVI e XVII. No século XIX foi substituída pela sonata.
Zarzuela
É um gênero teatral, tipicamente espanhol, entre o drama e a ópera, que alterna trechos declamados com canções, corais e danças. Sua estrutura dramática e musical guarda semelhanças com a opereta italiana, a ópera cômica francesa, e os musicais alemão e inglês. O gênero surgiu no século XVII como entretenimento aristocrático, dedicado a temas heróicos e mitológicos, e seu nome provém da residência real de La Zarzuela, perto de Madrid, onde se deram as primeiras apresentações.
A ascensão da ópera italiana provocou um período de decadência, a partir do final do século XVIII. Ressurgiria em meados do século XIX, diferenciada das obras barrocas anteriores por abordar principalmente temas e personagens populares e incluir elementos do folclore nas músicas e danças.