Suma Teológica de S. Tomás de Aquino em português
No atual movimento mundial de traduções da Suma Teológica de S. Tomás de Aquino, é a presente versão portuguesa a primeira publicada no continente americano. Inútil salientar-lhe a utilidade. A Suma do Aquinate não só é obra capital em teologia, como também constitui verdadeira mina de conhecimentos filosóficos. A presente versão é obra exclusivamente pessoa, honrando sobremaneira o espírito metódico e a extraordinária capacidade de trabalho do tradutor.
Segundo cálculo de Mons. A. Legendre, compreende a Suma 3113 artigos, cuja leitura completa, à razão de um por dia, ocuparia mais de oito anos. Ora, doze anos apenas levou a tradução! A versão da 1a. Pars ocupou quatro anos (1926-1929). A Prima Secundae foi vencida em três anos (1930-1932). A Secunda Secundae foi principiada em 1933 e continuada em 1934. A 3a. Pars e o Supplementum foram terminados em 1937.
A execução de obra tão alentada foi levada a efeito sem prejuízo da preparação em três concursos para provimento de cadeira, um de literatura, os outros, de filosofia do direito e de direito romano. Acresce uma vida de professor sobrecarregado de aulas, para ter um vislumbre da fidelidade inquebrantável à pequena tarefa diária, pela qual se constroem todas as grandes obras de espírito. ‘Leal e modesto, quis o tradutor que o original latino, tão raro hoje em dia, acompanhasse a versão, submetendo assim a própria obra à verificação e facilitando o acesso à preciosa fonte. Em suma, o dr. Alexandre Corrêa brindou as letras luso-brasileiras com um presente de inestimável valor, que os estudiosos nunca lhe poderão agradecer condignamente.
São Paulo, 10 de outubro de 1943,
Leonardo Van Acker
Uma tradução portuguesa da Suma Teológica de S. Tomás de Aquino é um verdadeiro acontecimento que deve marcar época na nossa literatura. A obra prima do grande gênio medieval não é destas que pertencem a um século ou a uma nacionalidade. Como todas as criações verdadeiramente geniais, alteia-se acima das particularidades de uma raça ou das contingências mutáveis de uma época, para atingir esta eminência humana que se impõe, na sua universalidade, a todos os lugares e a todos os tempos.
Na vida do Anjo das Escolas, ela representa a sua obra fundamental, a expressão mais completa do seu pensamento. Iniciada em 1266, quando o Santo se achava em plena maturidade intelectual, e só interrompida pela morte, encerra, salvo uma ou outra pequena exceção, a fórmula definitiva do pensamento e do ser, constitui a síntese mais robusta e mais ordenada de toda a sua filosofia e teologia.
Na evolução do pensamento medieval, a Suma assinala um apogeu. Os primeiros séculos da Idade Média foram de luta contra as devastações intelectuais acumuladas pelas invasões bárbaras. Os fins do século XII e a primeira metade do século XIII são caracterizados pelos contrastes penosos entre o augustinismo de inspiração predominantemente neoplatônica e o aristotelismo que pouco a pouco se ia revelando ao Ocidente em toda a harmonia de sua solidez. Foi Alberto Magno e principalmente Tomás de Aquino que levaram a termo a obra gigantesca de assimilação completa da síntese peripatética pela vitalidade intelectual do cristianismo. E a Suma Teológica é a expressão mais acabada desta harmonia profunda entre a razão e a fé, a filosofia e a teologia, em que vem culminar esplendidamente os melhores esforços de tantas gerações de pensadores cristãos.
Na catedral gótica com as suas ogivas e as suas cúspides, lançada toda para as alturas, como uma prece vasada na plasticidade da pedra, palpita toda a alma artística da Idade Média. Na Suma Teológica, com a amplitude de sua concepção, com a seriação ordenada de suas questões, com o rigor austero dos seus argumentos, espelha-se toda a serenidade e todo o vigor do seu pensamento.
Na história universal das idéias, a obra prima de S. Tomás ocupa um lugar privilegiado, quiça uma situação de incomparável singularidade. Sete séculos já volvidos não esgotaram a opulência de seus tesouros. A sua vitalidade está intacta. As universidade do século XX comentam-na com não menos admiração e utilidade, que a jovem Universidade de Paris do século XIII. Com exceção talvez as obras de Aristóteles, nenhuma outra foi tão lida e comentada, estudada e discutida. O seu pensamento palpita sempre vivo, com uma fecundidade inexaurível. Em toda a exatidão do termo, é uma obra-prima.
Eis o grande livro de que agora se nos oferece a versão portuguesa. Mas por que traduzi-lo?
Por que lhe não respeitar a língua original, este latim tão sóbrio e incisivo, tão denso e tão claro, trabalhado com tanta perfeição como instrumento de expressão técnica do pensamento escolástico? Sem dúvida, a quem for direta e facilmente acessível a língua imediata em que S. Tomás vasou as suas idéias, não seríamos nós a inculcar o recurso a um texto de segunda mão. Mas há muito que o tomismo ultrapassou as fronteiras do mundo eclesiástico onde o latim conserva ainda, como uma língua viva, o privilégio de ser lido e falado. Sacerdotes e leigos, católicos e não católicos, interessam-se cada vez mais vivamente por esta filosofia que, para ser apreciada em todo o seu valor, só quer ser conhecida em toda a sua plenitude. Foi esta exigência profunda de uma difusão mais ampla do pensamento tomista que tem inspirado sucessivamente as diferentes traduções da obra principal do Anjo das Escolas. Franceses, ingleses e alemães podem hoje lê-la vertida em seus idiomas.
Entre nós, onde as trevas do latim não são ainda facilmente devassáveis pela maior parte de nossos homens cultos, a necessidade afirma-se ainda com maior urgência e imperiosidade. Para levar a cabo, porém, tão árdua tarefa era mister, além de vontade enérgica, e disciplina na constância do trabalho, inteligência lúcida que ao conhecimento das duas línguas, latina e portuguesa, aliasse o domínio seguro do pensamento tomista.
Postular este conjunto raro de qualidades intelectuais e morais e lembrar o nome do Dr. Alexandre Corrêa é obedecer à mais espontânea das associações de quantos conhecem o cenário da cultura brasileira contemporânea.
O laureado pela Universidade de Lovaina, o professor carregado de benemerência da Universidade de São Paulo, da Faculade de Filosofia de S. Bento e da Faculdade de Filosofia “Sedes Sapientiae” reúne, na solidez de sua formação humanista, a pujança do pensador à elegância do escritor de bom quilate.
O pensamento medieval não lhe é menos familiar que os segredos da língua do Lácio e a riqueza de recursos do nosso bom vernáculo. Com esta armadura o ilustre professor abalançou-se à grande empresa e, num esforço aturado de vários anos, levou-a felizmente a termo.
A posteridade agradecerá, penhorada, a quantos cooperaram para levar a cabo o grandioso cometimento e dotar a literatura brasileira, no domínio do pensamento filosófico, da mais preciosa de suas jóias.
P. Leonel Franca, S. J.